A resenha de hoje vai pra arte de Vagner Vargas, da capa de Assembleia Estelar, coletânea da Devir que reúne histórias de Ficção Científica Política. As famigeradas capas da Devir costumam desagradar os leitores pelo visual peculiar que as figuras desenhadas pelo artista possuem. No tumblr Encapando, a definição Síndrome do Bonequinho não poderia ser melhor: “o capista não consegue desenhar seres humanos ou humanoides sem que eles se pareçam com bonequinhos de brinquedo, rígidos e inexpressivos”. E bonequinhos Playmobil, como bem apontou o PORRA FANDOM (sumido, por sinal. Cadê você, anônimo?).
E isso se repete na capa de Assembleia Estelar:

A ideia da composição não é ruim. Também não foi mal executada. Nem tão mal. As cores bronzeadas do fundo poderiam ter mais matizes e contrastes e os prédios mereciam um desenho mais minucioso pra não parecerem geometrias de plástico. Eu gostei daquele planeta (ou lua, não sei o tipo de corpo celeste que é). O efeito evanescente é interessante e o tamanho exagerado deu um impacto legal. Não tenho muito que falar da tipografia. É bastante simples e genérica.
O problema são esses bonequinhos. Eles são duros, robóticos, meio mola encolhida. A anatomia carece de dinâmica, vivacidade, organicidade. Não sei se a roupa é propositalmente desenhada pra esmagar, encolher e enquadrar o corpo dos personagens, mas eles parecem prisioneiros imobilizados.
O ilustrador também é artista plástico e basta uma olhada rápida em seu portfólio pra perceber que o estilo bonequinho se estende em suas obras não-editoriais. Se essa é a escolha estilística do artista, okay, há os que apreciarão e os que torcerão o nariz. Mas em se tratando de ilustração, a proposta comercial pede um apelo tradicional. Já ouvi dizerem que não comprariam determinado livro da Devir por causa da capa.
A falha reside na artificialidade.
E não precisa ser anatomicamente fiel pra conseguir uma pose orgânica. A anatomia pode ser retorcida e distorcida. Moldada no formato que você quiser, desde que se respeitem as contrações e distenções, dobras e escorços, articulações e ligamentos. É como escrever uma história de ficção científica num universo imaginário onde as leis foram criadas por você. As leis físicas desse universo são completamente diferentes das leis físicas do nosso mundo, e isso não é problema algum. Basta os eventos da sua história obedecerem a lógica dessas leis imaginárias. Do contrário, tudo soará artificial e você não convencerá o leitor. Os músculos (e tem mais de 600 deles) não estão sozinhos. Tem gordura e pele em cima, e cada camada reage de uma maneira diferente. Sobre que perna o personagem está jogando o peso? Os ombros estão caídos ou levantados? Qual a posição angular do torso e como as dobras da barriga reagem? A pele é fina e elástica ou velha e seca? O músculo é trabalhado ou as formas são sedentárias? Se esses detalhes são ignorados na hora de compor o desenho, a figura sai artificial. Sai um bonequinho genérico com prisão de ventre.
Pra ilustrar melhor a dinâmica que eu to falando, observem abaixo alguns estudos de Charles Hu, um mestre em desenho anatômico:



E agora observem alguns desenhos de Mike Mignola, criador de Hellboy. É um puta exemplo de anatomia distorcida que soa natural. Mignola criou suas próprias leis. O desenho é estilizado e quase sem curvas, mas possui o aspecto orgânico que não deixa o personagem todo robotizado.

Esses artbooks de Hellboy foram os melhores presentes que eu ganhei de Natal.

Sério. Os melhores presentes ever. Ainda babo em cima dos livros.
E enquanto isso os capistas da Devir continuam playmobilizando seus personagens. A capa de Taikodom – Crônicas, de autoria de Ivan Jerônimo, me causou duas reações imediatas.
Eis a capa:

Moço, tem ovas de peixe alienígena gigantes em cima da sua cabeça.
A primeira reação foi um:

E a segunda foi olhar mais atentamente e perceber que o bonequinho em destaque, além da aparente falta de glúteos médio e grande, tem pelo menos dois músculos esmagados, o trapézio e o angular da omoplata. Vai ver é por isso que ele tá com essa cara de quem chupou limão azedo.
E alguém me explica o por quê daqueles garfos flutuantes ali à direita?
Em seu Libelo contra a arte moderna, Salvador Dalí descreveu o Nu deitado de Picasso como “gravíssimo, impossível algo pior, pura bestialidade“. Certo que Dalí escreveu esse libelo como o louco com sangue nos olhos que ele era, mas não há como negar a elegância dessas palavras.
Eu não iria tão longe numa crítica de capa. Afinal, é uma capa. Mas dadas as circunstâncias comerciais da ilustração, acho que um pouco de estudo não faz mal a ninguém.